O autoexílio[1] de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, me fez retroagir no tempo em busca do fundamento de tal decisão, e, forçosamente fui levado a dar uma olhada nas decisões de Jair Bolsonaro no exercício da Presidência da República e recordar avaliações que fiz sobre algumas delas desde 2018.
“Não queremos o retorno de um militarismo no comando do país.
Militares, por essência e obrigação, são subordinados a uma hierarquia rígida
que não admite processos democráticos que levam em conta o jogo de forças
contrárias. É fundamental que assim seja para o cumprimento do papel das Forças
Armadas como prevê a Constituição. Admitir um militar da reserva como seu vice,
é plenamente justo e aceito por todos como ficou provado. Admitir um General da
ativa como Ministro da Defesa, é sensato e correto. Mas é aí que a participação
de militares no poder deve terminar, (...).”
Considerando que o âmbito de suas relações pessoais era muito limitado, o que não lhe dava muitas alternativas para compor um entorno de confiança, talvez eu tenha sido simplista demais naquela análise.
Hoje, depois de 7 anos, e consequente do dito acima, posso enxergar 2 razões para Bolsonaro ter se cercado de militares:
1. Sua história como deputado em 7 mandatos, calcada na defesa dos interesses das FFAA. Sua sonhada estratégia foi a de receber dos militares uma retribuição na forma de proteção a seu mandato, pois sua eleição, não imaginada pelo PT, não sairia “barata” no que dependesse de todos os quadros da esquerda a serem defenestrados do poder por ele após a posse e jogados no papel de oposição como prêmio de consolação.
Não era isso que estava na alça de mira dos Generais, Marechais e Brigadeiros. O objetivo deles era tão somente uma aposentadoria tranquila, Bolsonaro foi útil até enquanto eles estavam na carreira. Agora que chegaram...
2. Seu currículo, como deputado, é mais qualificado que os de 90% dos parlamentares. Ao longo dos mandatos, foi além de marcar presença para garantir as benesses, fez seus discursos, proposições, críticas, acordos e esteve à frente de umas 3 ou 4 comissões. Nunca se mostrou um líder, pois, em suas 4 tentativas de assumir a presidência da Câmara, foi mais do que derrotado, foi desconsiderado - recebeu menos de meia dúzia de votos. Isto não é um demérito, é a constatação de que o combustível da liderança não está em seu sangue.
Começou, portanto, com seu projeto de governança com falhas nos alicerces.
Minha segunda apreensão, e aí uma comprovação das consequências imaginadas na primeira, veio, em 24 de abril de 2020, a nomeação de Ramagem como Diretor-Geral da Polícia Federal, em consequência da saída de Mauricio Valeixo, demissão que iniciara uma crise de governo que ainda levou de roldão a saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça. Um recuo inexplicável quando tinha a população e a Constituição a seu favor, não fosse minha certeza quanto a pressões recebidas de seu círculo verde-oliva, diria que beirou a covardia. Mais tarde ouvi um buchicho, não mais que um buchicho, que pouco depois da posse, houvera uma consulta de ministros do STF aos integrantes do Alto Comando do Exército, sobre se eles teriam objeção quanto a iniciarem uma reação objetivando a retirada de Bolsonaro do poder. Teriam recebido um "segue em frente", dizem as más línguas.
Todo poder é uma concessão de representatividade que outros
lhe conferem para agir em nome de seus (deles) interesses. Não é que Bolsonaro não
soubesse disso. Ele não percebeu que depois de 28 anos - tempo de seus 7 mandatos - os interesses
daqueles que ele defendera tinham mudado, tinham "evoluído". Eles agora só queriam "botar o pijama" e garantir uma aposentadoria "digna". Se todo poder é delegado, o consentimento para governar, nestas circunstâncias, não era possível de lhe ser dado.
De qualquer modo, mais pra cá ou mais pra lá, ali acabou o governo, e a prova foi a percepção pelo "deep state" de que o Presidente não tinha a necessária delegação de poder para exercer o mandato
recebido por uma maioria de eleitores.
O que isto me prova? Jair Messias Bolsonaro, de "líder político", só detém a
qualificação de "político", e político experiente, diga-se, comprovado em 7 concursos.
De líder capaz de uma empreitada de transformações radicais como ele anunciou e
a maioria da sociedade esperava, nem cheiro. Sem chance.
Para obter a representatividade delegada, um pretendente a liderar uma maioria em marcha acelerada para o poder executivo, tem que ter, no mínimo, em minha opinião, algumas características necessárias que Bolsonaro não tem ou não a tem na intensidade exigida:
1. Ousadia para propor caminhos novos e bandeira para comunicar. Liderar para o mesmo? Não tem sentido.
2. Convicção de suas propostas e compromisso em efetivá-las.
3. Coragem e ânimo para enfrentar e derrotar os inimigos.
4. Abnegação e compromisso. Isto significa prioridade maior, acima de família, amigos, carreira profissional e lazer.
Bolsonaro não tem, em sua natureza, tal conjunto. Ele almejou a presidência pelo inconformismo, pela vontade e desejo de realizar, em vez de pelo poder de realizar. Entre desejo e poder, estão, ou não estão, as circunstâncias para realizar.
Bolsonaro foi – e ainda é – o líder possível nesta guerra sem
lógica - porque é contra os cidadãos brasileiros -, e, se já lógica, esta é apenas q do poder pelo phoder. E para esta, ele não tem cacoete
de líder. Desembainhar a espada e bradar “liberdade ou morte” não é uma
alternativa de um capitão. Sua opção, por personalidade, é participar do jogo
como coadjuvante, como ajudante de ordens, jamais como General de Campo.
Se meu Leitor pensar sobre a justificativa de convocação só para o Rio de Janeiro, desse 16 de março passado, entenderá que a decisão de restrição da participação popular em todo o Brasil, se deveu a seu medo de perder o controle e correr o risco de dar mais esdrúxulos e insanos argumentos ao Iluminado Supremo para realizar o tão almejado desejo de jogá-lo numa cela, mesmo que não seja tão fria. O resultado, infelizmente para nós, apoiadores e/ou admiradores e/ou seguidores deste líder possível, é o de aceitarmos a realidade inspirada na previsão de Churchill a Chamberlain: Entre a confabulação e a guerra, você escolheu confabular, e o pior, você terá a guerra.
EDUARDO BOLSONARO
Não preciso me alongar sobre ele e meu Leitor já vai ver por
quê.
Eu acredito na herança genética, em DNA, na experiência própria
e única, tanto quanto nas circunstâncias.
Eduardo é filho de Bolsonaro e, como tal, tem metade de seus genes do DNA paterno. Seu sangue é o mesmo de seu pai, não tem vestígio de liderança. Eduardo, em minha humilde opinião, é um brilhante parlamentar. Se não o melhor, está entre os melhores. Mas sua decisão, independente de fatos e conversas de bastidores, entraram em sua equação para a tomada da decisão de se exilar, seguiu a mesma lógica (interpretação minha): saio do país para, tal como meu pai que saiu da presidência, para trabalhar para resgatar o Brasil de volta à realidade de uma República verdadeiramente Democrática.
Este é o quadro que temos: Jair no Brasil e Eduardo do exterior. O resultado efetivo de suas trajetórias futuras?
Quem viver, verá!
Paulo Vogel
Neste meio, eu sou a mensagem.
Mar/25
[1] "O exílio voluntário (ou autoexílio) é frequentemente descrito como uma forma de protesto por parte da pessoa que o reivindica, para evitar perseguição (...), ou isolar-se para poder dedicar tempo a uma atividade específica." Fonte: IA do Google. Estas duas razões foram expostas por ele em seu já celebre comunicado em vídeo.
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