No texto “O Altruísmo
Egoísta” tratei sobre minha visão de que toda ação altruísta é, na realidade,
um egoísmo disfarçado, um altruísmo de
máscara, um falso altruísmo.
O egoísmo é um conceito moral,
é uma avaliação que fazemos sobre as ações dos outros com base em normas culturais
que visam regular nosso comportamento social.
Um egoísta, nesta visão, age
exclusivamente em seu benefício, sem considerar e respeitar o direito e os
interesses de outros à sua volta. Considera que a pessoa age sob o lema “farinha
pouca, meu pirão primeiro”. Mas, neste rótulo, há, quase sempre, a
presença de dois ingredientes: preconceito
e inveja. O primeiro, devido à ideia de que o benefício da ação egoísta não
deveria ser dado "àquele tipo” de indivíduo. O segundo, devido à percepção de “porque
ele e não eu?”.
Descarto, portanto, que o
egoísmo seja uma característica imanente ao ser humano. Considero uma aquisição
cultural à medida em que é considerado como uma pretensa necessidade para a conquista
de melhor posição na escalada social no mundo civilizado.
Tenho a convicção, esta sim,
de que só agimos no interesse da proteção à nossa existência como princípio
primeiro e maior, o que vai além da mera subsistência do
organismo.
Fui passar alguns dias com a família de meu filho que mora no exterior. Não lembro do motivo, mas em um dos papos com meu neto de 14 anos, lhe disse que o interesse próprio é o que move as pessoas. Recebi, do alto de sua inocente arrogância adolescente, um sorrisinho e um olhar que diziam: “esse meu vô é meio maluquinho, ele diz cada coisa!”. Percebi e pensei: “Hum, tenho que lhe provar o que disse”. No dia anterior, motivado pela reclamação da mãe que me dissera, com exagero, que os dois irmãos “não ajudavam em nada”, eu provocara meu neto com o chiste “o pior cego é o que não vê a louça suja na pia”. A minha “inocente” provocação surtiu efeito, pois no dia seguinte o peguei lavando toda a louça do almoço. Fiquei quieto e quando surgiu o momento adequado, lhe perguntei:
- “E aí Vinny, por que você
lavou a louça?”.
- Ah! Vô, porque eu quis!
- Ah! É! E por que você
quis?
- Pra minha mãe não
reclamar.
- Ah! É! Então foi por
interesse de agradar sua mãe! Entendi.
Em lugar do sorrisinho, recebi
um sorrisão do tipo “Hehe, meu avô me pegou nessa!”. E nos dias seguintes
conversamos sobre o papel do “interesse” próprio nas decisões que tomamos em
nosso dia a dia.
Isto não é egoísmo, é
autocentrismo. É ter como guia da tomada de decisão, das mais simples às mais
complexas, o interesse próprio, interesse que está basicamente subordinado à proteção
de nossa existência física e, principalmente, mental. Enquanto a riqueza trás conforto
e redução do desgaste físico, é a percepção de que nossa existência está
protegida, a condição e razão para nos sentirmo-nos bem[1].
Enquanto no egoísmo o mote
da ação é o retorno para si independente do outro, no autocentrismo o mote é a
satisfação espiritual, exatamente por levar em consideração a existência do
outro.
O autocentrismo é o incentivo à generosidade (altruísmo). Enquanto o egoísta desconsidera qualquer outro, pois se basta, o autocentrado TEM QUE considerar o outro, caso contrário ele falha em seu objetivo de sentir-se bem, de estar bem com sua existência espiritual.
O conceito de egoísmo é
moral e está sob o âmbito da sociologia. O autocentrismo faz parte do
comportamento ético[2]
e, portanto, da antropologia, e indo mais fundo, da biologia, do estudo da natureza
humana.
A Sociologia, cujo propósito é entender o comportamento humano no meio social, só será útil quando se concentrar no primeiro objetivo da vida: a proteção à sua estabilidade existencial.
De resto, é só discurso de intenção moralista.
Paulo Vogel
Mar/25
Neste meio, eu e você, somos a mensagem.
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