domingo, outubro 18, 2026

Nossa inquietante relação com a liberdade

 

“A pluralidade humana, condição básica tanto da ação quanto do discurso, tem o duplo caráter da igualdade e da distinção. Se os homens não fossem iguais, não poderiam compreender uns aos outros e aqueles que vieram antes deles, nem planejar o futuro e prever as necessidades daqueles que virão depois. Se os homens não fossem distintos, cada ser humano, distinguindo-se de qualquer outro que é, foi ou jamais será, não precisaria nem do discurso nem da ação para se fazer compreender. Sinais e sons para comunicar necessidades e desejos imediatos e idênticos seriam suficientes.” [1]

Os seres humanos anseiam por reconhecimento. Por seus esforços para serem o melhor funcionário, o melhor músico, o melhor escritor e o melhor político. Por meio do processo de distinção, tornamo-nos indivíduos e, ao nos ser permitido tornarmo-nos indivíduos, podemos experimentar a liberdade. É de fato verdade que, quando o processo de distinção veio ao mundo, a liberdade começou a ser concebida como uma realidade política. A capacidade de se distinguir e ser livre é, de fato, uma só e a mesma coisa. [2]

Platão foi o primeiro a teorizar o termo em “A República”, descrevendo Thymos como a paixão pela honra e pelo reconhecimento. Hannah Arendt mais tarde conceituou essa capacidade de distinção como o novo “mundo em potencial” ou a capacidade de iniciar “novos começos” em “cada novo nascimento”[3], que, para ela, “é de fato cada homem”.  Tocqueville identifica a questão de maneira semelhante ao definir o mundo político como estando constantemente em “um estado de agitação, disputa e incerteza”, que manifesta uma “independência que despreza a experiência e é ávida em sua busca por autoridade”[4].  John Adams descreveu literalmente a “paixão pela distinção” do Homem como uma grande força motriz da atividade social em seus “Discursos sobre Davila”.

A distinção, antes de se tornar política, é determinada sobretudo por condições biológicas e sociais (por exemplo, inteligência, talento, privilégio, esforço). Então, para que se torne uma realidade política, exige uma instituição ou pessoa com o poder de garantir essa oportunidade a si mesma ou a um certo número de pessoas. Observe, porém, que reconhecer a necessidade de distinção, por si só, dificilmente é suficiente para garantir essa liberdade política a todos. É de fato o caso de que as hierarquias entre os homens nunca são tão distintas em uma terra que apenas reconhece o papel da distinção, onde a desigualdade entre eles acaba por se dividir em mestre e escravo[5]. 

Também é verdade que, ao buscarmos nos distinguir, cometemos atos horríveis em nome da grandeza. Tomemos Gêngis Khan, Napoleão, Oppenheimer ou até mesmo Alcibíades, cuja busca pela grandeza levou à destruição de sua própria nação. Na cultura popular, chamamos isso de arrogância. Francis Fukuyama chama esse excesso de Megalothymia em seu livro “O Fim da História e o Último Homem”. Fukuyama também fala disso de forma concisa em um de seus vídeos no YouTube[6], no qual critica extensamente o atual governo por apresentar sinais dessa ambição imprudente. A obsessão de Donald Trump por reconhecimento talvez venha a se tornar o exemplo mais marcante, na memória recente, das catástrofes que esse sentimento pode provocar.

Esse princípio é uma parte daquilo que impulsiona a mudança social: a Pluralidade; É também um dos principais componentes daquilo que bem pode ser chamado de liberdade política. E, em última análise, daquilo que pode nos definir como humanos. Mas, como demonstrado acima, o processo de distinção, por sua capacidade de introduzir profundas desigualdades no mundo, precisa de um agente regulador. Esse agente é também o seu oposto: a Igualdade.

Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos Direitos inalienáveis, entre os quais estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade.”[7]

A igualdade foi concebida pela primeira vez no mundo com o nascimento de Jesus de Nazaré e da seita cristã primitiva, que tinha uma “natureza claramente rebelde, com sua ênfase na igualdade das almas perante Deus, seu desprezo aberto por todos os poderes públicos e sua promessa de um Reino dos Céus”[8]. O estabelecimento da igualdade diz respeito à capacidade de compreender que há direitos que todos temos a dignidade de exercer. Que, por mais ambicioso que seja o empreendimento de alguém, ele jamais deve infringir essas “verdades evidentes por si mesmas”. Bastaria olhar para os poderes despóticos do imperialismo, com sua ênfase no pensamento racial, para compreender o que acontece quando essa “igualação das almas” se perde. Cujo empreendimento se justificava unicamente sob os preceitos de que as civilizações consideradas “atrasadas” precisavam ser dominadas pelos valores ocidentais.[9] Podemos também olhar para a Antiguidade, cujos pensadores consideravam a instituição da escravidão parte da ordem natural de um mundo profundamente hierárquico. Vez após vez, essas histórias podem nos obrigar a lembrar que “Não importa o que os eruditos cientistas digam, a raça é, politicamente falando, não o início da humanidade, mas o seu fim, não a origem dos povos, mas a sua decadência, não o nascimento natural dos homens, mas sua morte sobrenatural”.[10] Mas os limites da igualdade não são menos óbvios do que a implicação despótica da desigualdade.

“A liberdade em sentido positivo só é possível entre iguais, e a própria igualdade não é, de modo algum, um princípio universalmente válido, mas, novamente, aplicável apenas com limitações e até mesmo dentro de limites espaciais.” [11]

A compaixão, uma vez que entra na política, pode se tornar uma força perigosa. O fracasso definitivo da Revolução Francesa em fundar um novo corpo político pode ser corretamente atribuído à sua obsessão em estabelecer aquilo a que as pessoas têm direito, em vez de estabelecer os limites do governo. A razão decisiva dessa inversão na França e de sua ausência na América tem a ver, sobretudo, com a presença de extrema pobreza exclusivamente na primeira. O sofrimento de grandes massas de pessoas na França despertou compaixão entre os líderes da revolução. Essa glorificação do sofrimento transformou aquilo que o povo suportava (isto é, a miséria) em fúria. E os líderes da revolução, lutando em “nome” da igualdade, convenceram-se de que quaisquer meios necessários para levar a revolução adiante eram justificados. Sua autoridade absoluta tornou-se, então, uma conclusão ainda mais fácil, já que a república não continha mais “pluralismo”; não havia uma “multiplicidade” de facções, credos ou religiões; havia apenas a necessidade de pão.

“(…) o tipo de multiplicidade que os fundadores da república americana primeiro representaram e depois constituíram politicamente, se é que existia na Europa, certamente deixava de existir assim que se chegava às camadas mais baixas da população (…) A imagem de Rousseau de uma ‘multidão (...) unida em um só corpo’ e movida por uma só vontade era uma descrição exata do que eles [os franceses pobres] realmente eram, pois o que os impelia era a busca pelo pão, e o clamor por pão sempre será proferido a uma só voz. Na medida em que todos precisamos de pão, somos de fato todos iguais e podemos muito bem nos unir em um só corpo [assim, a autoridade absoluta tornou-se algo natural].” [12]

Curiosamente, Tocqueville faz a mesma observação quando atribui o estabelecimento bem sucedido da liberdade na América ao fato de que os colonizadores “não foram forçados pela necessidade a abandonar sua terra natal (…)”; todos pertenciam às “classes ricas da pátria-mãe (Inglaterra)”, enquanto as outras colônias haviam sido fundadas por “aventureiros sem família”. Aqui ele se refere aos colonizadores da Nova Inglaterra, de onde acredita que surgiram os princípios duradouros da liberdade, “permeando” os estados vizinhos. Em outras palavras, os homens que fundaram o princípio da liberdade na América “arrancaram-se dos confortos de sua terra natal (…)”, em contraste com os revolucionários franceses, “(…) para obedecer a uma necessidade puramente intelectual (…) seu objetivo era o triunfo de uma ideia”[13],  não a conquista da pobreza.

Ao criar um corpo político que “deveria se apoiar nos direitos naturais do homem na medida em que ele não é senão um ser natural”, com direito a “alimento, vestuário e reprodução da espécie”,[14] os constituintes da Revolução Francesa esqueceram completamente seu objetivo original de estabelecer a liberdade. Robespierre, consumido por seu objetivo de acabar com a miséria, conduziu a revolução pelo caminho de matar qualquer pessoa de quem suspeitasse ser um hipócrita ou um traidor oculto. Mais tarde, podemos observar exatamente o mesmo padrão na Revolução Bolchevique, e não seria surpresa para ninguém descobrir suas profundas inspirações na Revolução Francesa, nem seria certamente injusto julgar Lenin como seu “último herdeiro”. A verdade é que, se somos tampouco iguais em uma terra sem lei, onde se permite que a esfera pública corra solta, tampouco somos desiguais no conforto de nossas próprias vidas privadas (onde reside o ciclo da vida). Em uma, somos dominados pelos mais aptos e a hierarquia dessa dominação nunca é mais clara; na outra, somos seres passivos despossuídos de individualidade.

Terminologicamente, isso revela um perigo maior: podemos viver em um mundo perfeitamente livre e, ainda assim, dificilmente seremos indivíduos “livres” no sentido político. Seria muito útil imaginar uma colônia de formigas em que cada um de seus membros está perfeitamente livre de interferência física e, no entanto, cada um segue um padrão previsível/cíclico ao longo de toda a vida. A falta de diferenciação entre as formigas e a dificuldade de observar um indivíduo fazem com que dificilmente se pareçam com a liberdade. Esse é o “Despotismo Suave” em que Tocqueville insiste redundantemente ao longo das 900 páginas de “A Democracia na América”. A demonstração popular do despotismo que Tocqueville temia pode ser atribuída ao filme da Pixar Wall-E, que demonstra uma dependência generalizada, uma incapacidade de autonomia e de formação de uma sociedade de massa. A conclusão é que existe aquela liberdade que diz respeito à capacidade exclusiva de locomoção, enquanto outra liberdade (a liberdade política) se refere a um conceito mais amplo, descrevendo uma qualidade existencial dos indivíduos.[15]  

Historicamente, pode-se observar que, uma vez que o papel do governo deixa de estabelecer liberdades negativas para se voltar à solução do eterno problema da escassez, o despotismo se segue. A ideia de que a passividade é resultado da desigualdade desenfreada também foi observada por Tocqueville, que identifica as religiões como parte dessa “força igualadora” que vela pelas “liberdades civis” para impedir que ela se torne “uma obediência passiva, ainda que voluntária”, na qual “tudo é classificado, sistematizado, antecipado e decidido de antemão”[16].  Fukuyama também descreve esse mundo como um lugar onde, “embora ninguém seja legalmente impedido de querer ser reconhecido como superior, ninguém é encorajado a fazê-lo”[17]. 

A revelação de que igualdade e desigualdade, longe de se contradizerem, são complementos necessários à fundação da liberdade política também é reconhecida por esses mesmos autores. De Tocqueville escreve:

“Longe de prejudicarem uma à outra, essas duas inclinações, apesar de sua aparente contradição, parecem caminhar em mútuo acordo e apoio.”[18]

E Arendt lamenta sua separação na modernidade: “O ato de fundar o novo corpo político, de conceber a nova forma de governo, envolve a séria preocupação com a estabilidade e a durabilidade [proporcionadas pela igualdade] da nova estrutura; a experiência, por outro lado, que aqueles envolvidos nessa séria tarefa inevitavelmente terão é a consciência exultante da capacidade humana de começar [isto é, de distinção], o entusiasmo que sempre acompanhou o nascimento de algo novo na Terra. Talvez o próprio fato de que esses dois elementos, a preocupação com a estabilidade e o espírito do novo, tenham se tornado opostos no pensamento e na terminologia políticos — um sendo identificado como conservadorismo e o outro reivindicado como monopólio do liberalismo progressista — deva ser reconhecido como um dos sintomas de nossa perda.”

A partir daqui, deve estar claro que o Estado de Bem-Estar Social, como conceito político e filosófico, surgiu diretamente da preocupação da Revolução Francesa com a “Questão Social” (isto é, o problema da escassez, da desigualdade, da pobreza etc.). Ainda assim, a questão contemporânea que decorre dessa linha de pensamento surge nas dificuldades de compreender que igualdade e desigualdade são complementos, e não opostos, devido ao evidente problema de definir, antes de tudo, aquilo que constitui a liberdade. O que se tem observado é que todos concordamos que o governo deve proporcionar liberdade, mas há um abismo entre as definições de liberdade. Isso se deve, em parte, ao fato de que igualdade pode significar muitas coisas (política, social, econômica etc.) e, em parte, à formulação de Marx de definir a história como uma luta de classes. O que pretendo apontar e enfatizar com clareza é que uma revisão sistemática da história e da filosofia parece apontar para a seguinte conclusão: O papel do Governo [deveria ser o de inibir liberdades negativas] é proclamar liberdades negativas[19]  com base na igualdade política e minimizar qualquer interferência na vida privada (isto é, na esfera privada) dos indivíduos. Sempre que esse não foi o caso, ou seja, sempre que, na história, o governo de fato assumiu um papel privado na sociedade, isso não acabou bem.

 A força motriz por trás desses momentos da história pode ser atribuída, em grande medida, à crença de que a liberdade é, de fato, a libertação da necessidade, e não a capacidade de se distinguir entre iguais. Nenhum outro pensador confundiu tão profundamente o papel do governo quanto Karl Marx em sua formulação do comunismo, que não apenas afirmava que o papel do governo era garantir a provisão das necessidades, mas equiparava a liberdade à libertação dessas necessidades. Para Marx, a liberdade não significava uma “paixão pela distinção”, como apontou John Adams, ou a capacidade de começar algo completamente novo e inesperado, como na definição de Hannah Arendt. A diferença decisiva está no fato de que sua abordagem reducionista conduziu à própria derrota. Ao confundir o significado da liberdade em sua odisseia para resolver o problema da escassez, Marx acabou aniquilando a liberdade que realmente importa. O que ele não viu foi que um mundo em que somos todos iguais é o mesmo que um mundo sem liberdade: onde não nos distinguimos, pois não somos incentivados a nos superar, nem a perseguir nossa paixão ou defender políticas para mudar o mundo, pois esse é um mundo de conforto. Nem vale a pena mencionar como a autoridade absoluta que o comunismo historicamente conferiu aos seus respectivos governos (Venezuela, Rússia, Cuba etc.) tampouco resolveu a Questão Social ou estabeleceu qualquer tipo de liberdade.

 A confusão profundamente enraizada de que a liberdade deriva da disponibilidade de recursos não é exclusiva de Marx e se torna ainda mais evidente no mundo moderno, cuja principal característica é a abundância. Essa afirmação é articulada com maior clareza por Hannah Arendt quando diz:

“A incapacidade de lembrar e, com ela, a incapacidade de compreender têm sido evidentes sempre que, em raros momentos, o diálogo hostil com a Rússia Soviética tocou em questões de princípio. Quando nos disseram que, por liberdade, entendíamos livre iniciativa, fizemos muito pouco para dissipar essa monstruosa falsidade (…) A riqueza e o bem-estar econômico, temos afirmado, são os frutos da liberdade, quando deveríamos ter sido os primeiros a saber que esse tipo de ‘felicidade’ era a bênção da América antes da Revolução [quando não havia liberdade] (…) A livre iniciativa, em outras palavras (…) é uma bênção menor se comparada às liberdades verdadeiramente políticas, como a liberdade de expressão e de pensamento, de reunião e de associação. O crescimento econômico… em hipótese alguma pode… conduzir à liberdade ou constituir uma prova de sua existência. Uma competição entre a América e a Rússia, portanto, no que diz respeito à produção e aos padrões de vida (…) jamais poderá decidir… qual forma de governo é melhor, uma tirania ou uma república livre. Portanto, nos termos da Revolução Americana, a resposta à proposta comunista de igualar e superar os países ocidentais na produção de bens de consumo e no crescimento econômico deveria ter sido (…) lembrar aos nossos oponentes que conflitos sérios surgiriam (...) apenas (…) do conflito entre liberdade e tirania, entre as instituições da liberdade e as diversas formas de dominação.” [20]

Arendt considera que uma corrida em termos de desempenho econômico e científico para decidir a legitimidade de duas nações (os soviéticos e a América) perde de vista uma questão essencial. Para ela, isso é evidência de que os padrões de vida relativamente elevados da América — que por tanto tempo permearam a vida e os costumes de seus cidadãos — os fizeram esquecer o que a liberdade realmente é. Essa abundância os enganou, levando-os a acreditar que a libertação da necessidade constituía a verdadeira liberdade política. Competir em termos de desempenho econômico é, portanto, essencialmente colocar a legitimidade da liberdade sobre o fundamento da abundância. A questão essencial, então, passa a ser: Se os soviéticos (uma tirania) tivessem vencido a corrida, isso teria sido motivo suficiente para deslegitimar uma República Livre? Para Arendt, muitos teriam respondido que sim, e a razão está em seu erro de definir a liberdade como libertação da necessidade material. A liberdade material pode ajudar na conquista da liberdade política, mas jamais pode ser aquilo que a constitui.

Sua premonição acaba por iluminar os debates modernos em torno da legitimidade do modelo político da China. Um modelo político que, simultaneamente, fortaleceu o dogma dos comunistas e abalou o fanatismo dos idealistas do livre mercado. Mas, novamente, essas discussões jamais tratarão do verdadeiro problema de todo governo: o problema da liberdade. A verdade é que tanto o marxismo quanto os livres mercados deixam de ser relevantes assim que a liberdade deixa de ser uma realidade política. 

 

Diogo S. B. Vogel (2006-) - [5º motivo: É meu neto.]

14 de outubro de 2026

 

P.S. Essa dissertação é parte de um projeto em que procuro compreender como a teoria econômica pode nos ajudar a entender de que maneira a expansão de uma burocracia para além de seu escopo original pode inibir as liberdades políticas. Parece que a existência relativa de inovação em uma economia pode ser um forte indicador da excelência humana (a qual é intrinsecamente relacionada à individualidade e liberdade).

 

[1] Hannah Arendt, The Human Condition, 2ª ed. (University of Chicago Press, 1998), cap. 5.

[2] Note que uma pesquisa rápida no google revelará que tal paixão de se distinguir não se isola a teses filosóficas, mas também parece ser extensamente apoiada pela psicologia moderna. Tome como exemplo a “self determination theory” que propõe “competência” como uma de três necessidades psicológicas. 

[3] Arendt, The Origins of Totalitarianism (Mariner Books, s.d.), cap. 13.

[4] Alexis de Tocqueville, Democracy in America and Two Essays on America, trad. Gerald Bevan, introdução e notas de Isaac Kramnick (Penguin Classics, 2003), 56.

[5] O Feudalismo e as civilizações da antiguidade sendo exemplos principais de um civilização extremamente hierárquica. 

[6] Francis Fukuyama, “Rubio Is Cribbing from My Book,” vídeo do YouTube, acessado em 14 de outubro de 2026, https://www.youtube.com/watch?v=zYr8nsagxDM. 

[7] A Declaracao da Independencia 

[8] Arendt, On Revolution (Penguin Books, 1990), 16. 

[9] Arendt, Origins of Totalitarianism, parte 2, “Imperialism.” 

[10] Arendt, Origins of Totalitarianism, 157.

[11] Arendt, On Revolution (Penguin Books, 1990, 1963)

[12] Arendt, On Revolution, cap. 2.

[13] Tocqueville, Democracy in America, 42–43. 

[14] Arendt, On Revolution, 109.

[15] Uma ilustração perfeita da questão pode ser vista em Pluribus, criado por Vince Gilligan (Apple TV, 2025–). 

[16] Tocqueville, Democracy in America, 56.

[17] Francis Fukuyama, The End of History and the Last Man (Free Press, 1992).

[18] Tocqueville, Democracy in America, 56.

[19]  As liberdades negativas definem o que o governo não pode fazer, em vez daquilo que deve proporcionar, em contraste com as liberdades positivas. Tomemos, por exemplo, a primeira emenda: O Congresso não fará nenhuma lei que estabeleça uma religião ou proíba o seu livre exercício; ou que restrinja a liberdade de expressão ou de imprensa; ou o direito do povo de se reunir pacificamente e de peticionar ao Governo pela reparação de agravos.”

[20] Arendt, On Revolution, 218.

 







sábado, outubro 10, 2026

CIDADANIA E O DIREITO DE VOTO


Circulam nas redes sociais publicações que apontam para o resultado da votação no primeiro turno das eleições de 2026 nos presídios. Na média dos locais considerados, Lula recebeu 73% e Flávio 23%[1]. O voto no descondensado não surpreende nem a mim nem a ninguém, creio. Se fosse me surpreender seria com Flávio ainda ter obtido a preferência de expressivos 23% dos encarcerados, inúmeras vezes mais que os dos demais candidatos, incluso os governadores de dois mandatos, Zema (0,27%) e Caiado (2,18%)!!!

A primeira constatação óbvia, é a deste pleito não ter sido  uma disputa  entre lideranças, entre “personas” políticas, e nem mesmo uma opção entre dois campos ideológicos. Enquanto a soma dos votos dos dois primeiros foi cerca de 110 milhões de votos, os de todos os demais candidatos foi de cerca de 6,7 milhões!!! A impressão que dá  é que só conhecidos, seguidores, amigos e parentes votaram neles. Tal discrepância evidencia que a razão de voto da maioria nesta particular eleição está entre permanecer na insanidade da fé em um líder materialista comunista, ou em dar um basta e buscar um outro caminho, pois qualquer outro caminho é melhor que este que nos leva, como nação, em direção ao precipício.

O que já assistimos e o que ainda temos por ver no segundo turno, é o repúdio de uma parcela majoritária da opinião pública a uma determinada visão de mundo que, filosoficamente considerada, ignora a natureza humana e a diversidade dos interesses individuais. É uma tardia constatação distribuída por todos os espectros socioeconômicos da população de que foram duas décadas de engodo, farsa e corrupção, praticados sem qualquer escrúpulo, vergonha ou incômodo moral. Nas palavras do líder deste partido que se posta como chefe de uma facção criminosa, pois defende que “os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são, sabe, vítimas dos usuários também”[2].

Mas o que eu não sabia é que presidiários votam!!! Hipocrisia. Proclama-se à bandeira solta que o “voto é um direito do cidadão”, e a definição de cidadão, em termos jurídicos, “é o indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado”. Ora, a primeira consequência de condenados pela justiça é perder os plenos “direitos civis”, mas, estranhamente, para a justiça eleitoral, não é perder o direito político do voto!

Por  que um traficante, um assassino, um estuprador, um pedófilo, um criminoso enfim, julgado e encarcerado, tem garantido tal direito? Sob quais premissas racionais, emocionais, lógicas e circunstanciais será a natureza de seu voto? A quê ou a quem proteger este “direito” interessa? Hipocrisia.

Nos Estados Unidos cerca de 2,3% da população são proibidos de votar[3] enquanto não tiverem quitadas suas dívidas com a justiça, e isto inclui até mesmo aqueles que estão sendo processados mas ainda sem condenação.

Curiosamente, tal medida é criticada pelos “regressistas”, pois, dizem, prejudica o partido Democrata. Chegam mesmo a dizer que ela é uma medida “antidemocrática”! Tem lógica pra tudo, é só arrumar adequadamente os argumentos. Estupidez e hipocrisia.

Terminando, só vou lembrar de uma outra ponta do direito de voto, o dos jovens a partir dos 16 anos. Não podem dirigir e não podem ser julgados na justiça comum, mas podem votar estruturados sobre a lógica dos argumentos de uma plena e conturbada adolescência de dúvidas e angústias. Não importa, ou melhor, é isso mesmo que se deseja, pois a ilusão das promessas vãs têm assentos privilegiados nas mentes juvenis. Nossos demopetistas têm algo a ensinar aos democratas americanos.

Bom final de semana!

quarta-feira, outubro 07, 2026

A REVOLUÇÃO DOS IDIOTAS


COMO A IGNORÂNCIA DOMINOU O MUNDO MODERNO

O texto de hoje é uma edição com muitos cortes de um original publicado com este título e subtítulo acima, no Youtube, no canal “Despertar Filosófico”. Procurei o nome do autor, mas não encontrei. Se alguém souber, me diga.

É mais uma seleção das ideias do autor do que uma edição, síntese, resumo ou extrato de um artigo. Faço algumas poucas pontuais observações (que estão sempre entre colchetes e em negrito). A maioria não chega nem a ser um comentário, mas apontam para a divergência básica com o autor, pois ele ele trata o tema com uma perspectiva saudosista, sempre apontando para uma deterioração de valores civilizacionais do passado que estão sendo ou já foram destruídos (na edição retirei estas comparações e, portanto, este aspecto só é percebido claramente na leitura completa do original).

Usando o recurso do word para transcrever o áudio, obtive 7 páginas de texto sem parágrafos, que, depois desta edição, incluindo parágrafos, ficou com apenas duas páginas. A diferença, portanto, é grande. Reproduzo apenas os pontos que me pareceram mais relevantes no intuito de provocar a reflexão dos leitores. Independente de minhas pontuais divergências, o conteúdo é excelente e dá uma síntese desta Era Digitrônica em que estamos mergulhados sob a ótica de uma contemporânea de uma sociedade sob o domínio da estupidez. O link do vídeo é este: https://www.youtube.com/watch?v=6cOVtzYdbEI

Bom proveito!

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“A humanidade atravessa um paradoxo sem precedentes: nunca fomos tão profundamente estúpidos, fizemos uma escolha deliberada pela ignorância.

Nietzsche alertou que o homem prefere querer o nada a não querer, A sociedade contemporânea cultiva a estupidez, a celebra e a transforma em modelo de sucesso. O idiota deixou de ser uma anomalia social para se tornar o padrão aspiracional.

[Quando escolho ser ignorante, exalto o ignorante para me sentir exaltado. Simples assim, e nada de errado sob a luz do autocentrismo.]

A revolução não veio dos oprimidos contra opressores, mas dos ignorantes contra o próprio conhecimento. A profundidade foi substituída pela performance [produtividade], o pensamento pela reação e a verdade pela conveniência emocional. A estupidez não apenas perdeu seu estigma social, ela conquistou legitimidade, poder e admiração. O idiota moderno protagoniza, opina, dirige e comanda.

A antiga hierarquia do conhecimento colapsou, a ignorância se tornou virtude, o especialista que dedicou décadas ao estudo é colocado no mesmo patamar do amador. A mediocridade virou marca de identificação com as massas. Carregar sabedoria é uma forma de traição à comunidade do simplório. Assistimos à ascensão de uma nova aristocracia, a da estupidez ostensiva.

Ver alguém tão limitado quanto si mesmo ocupando posições de destaque oferece uma validação psicológica irresistível.  Seguir o idiota exige apenas concordar com o que já se sente. O sistema foi redesenhado [por um questão econômica de indivíduos e entidades autocentrados em seus interesses] para produzir exatamente o tipo de indivíduo que vemos proliferar superficialmente o suficiente para ser manipulável e confiante.

A revolução dos idiotas começou quando ..... [Não existe revolução e de qualquer fora não tem nada de novo, só existe adaptação dos interesses as novas circunstâncias!]. Ela [apenas] consome e regurgita em ciclos cada vez mais rápidos e rasos. Hoje só damos ouvidos aos pensamentos que vêm com berros e impacto imediato. A sutileza morreu junto com a paciência necessária para compreendê-la. Hoje, uma opinião deve ser formada em segundos e defendida com ferocidade tribal, independentemente de sua fundamentação.  É verdadeiro porque ressoa emocionalmente, porque confirma preconceitos existentes, porque oferece conforto psicológico. [Nenhuma novidade!]

Eu sinto, logo essa [sua] verdade é sentida e é tratado como agressão pessoal. O debate racional tornou-se impossível não porque as pessoas discordam, mas porque discordar exigiria primeiro compreender a posição do outro. A realidade que insiste em ser complexa e multifacetada é violentamente espremida. A repetição cria a ilusão de compreensão. Se algo foi dito, muitas vezes, passa a parecer verdadeiro.

Quando a emoção passa e os resultados desastrosos aparecem, a resposta não é refletir sobre o processo que levou ao erro. É um ciclo vicioso de estupidez emocional, onde cada erro apenas fortalece o mecanismo que o produziu. Na distração perpétua, apenas o superficial sobrevive. O Império da superficialidade não foi construído por decreto, mas por sedução.

A embalagem substituiu o conteúdo. A preocupação é parecer valioso. A verdade tornou-se irrelevante. Fatos inconvenientes são descartados se não se encaixam na história que queremos contar. Não há mais uma realidade compartilhada sobre a qual possamos dialogar. [Exatamente porque ficou exposto que a verdade não existe, ela sempre  é uma narrativa única e própria de cada indivíduo.]

Visibilidade pode ser manufaturada, gerenciada, monetizada. [Nada é novo, tudo é apenas um velho potencializado.]

A estupidez é empacotada como entretenimento. Reality shows que celebram o comportamento degradante.... tudo isso não é acidente, é design intencional. Há mais dinheiro na exploração da estupidez do que na elevação da inteligência. [Pra quê ser inteligente se temos a IA?}

Para existir socialmente, é preciso estar constantemente produzindo conteúdo, emitindo opiniões, mantendo presença. Nos expomos simplesmente para sermos vistos [e para sermos exaltados e aceitos. Enfim chegou a hora dos medíocres. “Agora é nóis!”].

Quando as instituições tradicionais colapsam, novas surgem para preencher o vácuo. A religião contemporânea tem telas digitais. O influenciador moderno lidera por capacidade de gerar identificação emocional. Sua autoridade vem de quantos o seguem. O que importa é a sensação de conexão, ter a ilusão de intimidade com alguém. As pessoas querem ser validadas e entretidas.

A adoração dos vazios não é fenômeno novo, mas sua escala é sem precedentes. Um único idiota com acesso à tecnologia certa pode infectar milhões de mentes em questão de horas. A promessa de pertencimento é a risca fundamental numa sociedade atomizada. Questionar o influenciador é trair a comunidade. Apontar inconsistências em seu discurso é heresia. A relação deixou de ser racional e tornou-se emocional e tribal. [Ela sempre foi tribal.] Santos e seus demônios, todos determinados pelo capricho emocional da massa. A fama substituiu a santidade. A obscuridade é o inferno. As massas são seduzidas por mecanismos que exploram vulnerabilidades psicológicas profundas, necessidade de pertencimento, medo de exclusão, desejo de validação.

O sistema educacional existe para formatar mentes segundo as necessidades do aparato produtivo e político. [Nenhuma novidade!] Eu, o estado, sou o povo. Cada geração emerge das escolas mais preparada para obedecer, tecnicamente treinados, mas intelectualmente castrados.  O sistema não quer cidadãos livres, quer funcionários previsíveis.

Aprendemos rapidamente qual comportamento produz recompensas.[E qual a novidade nisso?]  

Os verdadeiramente inteligentes recuaram não por covardia ou indiferença, mas por cálculo racional de suas opções num mundo onde inteligência tornou-se passivo, não ativo. Descobriram que argumentar com ignorância é exercício fútil.

No Império dos idiotas, a verdade não triunfa, ela é simplesmente descartada como inconveniente. O silêncio dos sábios é preservação de energia para batalhas que possam ser vencidas e interlocutores que ainda são capazes de raciocínio.

A sabedoria é rotulada como arrogância, porque a arrogância é crime social mais facilmente identificável e punível que estupidez. O idiota não consegue desafiar argumentos do sábio, então ataca seu caráter e mobiliza ressentimento.

O silêncio tornou-se último refúgio da lucidez. A emoção grita por abandono da razão. Os inteligentes não abandonaram o mundo, apenas reconheceram que o mundo os abandonou primeiro, e esse silêncio estratégico talvez esteja a única Esperança. Que quando a civilização da estupidez inevitavelmente colapsar ainda haverá mentes preservadas capazes de reconstruir algo melhor antes de nos despedirmos. [Melhor pra quem?].”


segunda-feira, setembro 28, 2026

A RAZÃO DO VOTO


O tema proposto é apenas um pequeno excerto dentro de um todo sobre a ação humana, mas que trato aqui por estar às vésperas de um processo eleitoral que ainda temos a esperança de que ocorra nos próximos 4 e 25 de outubro.

Fui motivado por um vídeo no Youtube que, em essência, expõe uma das falas que mais me irritam quando a ouço: “o povo não sabe votar”, e menos ainda, o “brasileiro”! É mais que hipocrisia, mas vou me ater apenas a este aspecto por ser o que interessa neste momento.

O que é saber votar, “cara-pálida”? Votar em quem você vota? Deixemos de lado este aspecto arrogante de tal argumento. É concordar com sua visão, sua análise, seus interesses? Mas se cada indivíduo tem sua própria visão, faz sua própria análise e tem seus próprios interesses, então “saber votar” não pode ser votar como você!!! Aliás, nem mesmo os que se dizem “saber votar” – sim, quem acusa “o povo” de não saber votar é porque se arvora o “saber votar” e se exclui da massa “povo” –, não estão de acordo com em quem ou no quê votar!!!???

Hipocrisia exposta, vamos ao que interessa.

Todos nós sabemos votar, sejamos “povo”, instruídos ou destruídos, parasitas ou empreendedores, analfabetos funcionais ou intelectuais cooptados, elite política, classe A, B, C, D... nenhuma classificação importa, todos temos nossas razões autocentradas para todas as nossas ações, e votar é, em instância básica, tentar exerce-la como manifestação do livre-arbítrio.

Ok, você concorda com esta obviedade no seu grupo de pertencimento, mas não no “povo”, é isso? Ah! Já sei, o “povo” não está entendendo que seus – de você – interesses estarão sendo ameaçados se o “povo” votar "errado", é isso!?

A existência e sua sobrevivência, física, mental e espiritual (ou intelectual, como queira), são absolutamente subordinadas ao momento presente. Se estou com sede, quero água agora, não depois. Se estou com dúvida, preciso buscar certeza tão logo. Se estou com medo, preciso de segurança imediata.

Evidentemente esta premência em atender interesses autocentrados é relativa à complexidade da realização de sua satisfação, mas o voto nada mais é que uma aposta que fazemos para isto, na esperança de que seja no curto prazo, porque nosso tempo de vida está se exaurindo.

O Homem, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, primeiro há que buscar satisfazer suas necessidades físicas básicas de curtíssimo prazo – abrigo, alimento, saúde e segurança -, para só depois ter interesses de médio e longo prazos – crescimento profissional, futuro dos filhos e da nação, preservar patrimônio. etc.

Um segundo aspecto é que todo ser busca sua melhor zona de conforto. Sinceramente, quem não gostaria de não precisar “ralar” para ter os recursos para a satisfação de seus interesses depositados em sua conta bancária todo santo mês? Por que você acha que é melhor o sujeito do “povo” se arriscar a perder benesses como os diversos “bolsas” socinistas e votar no candidato que promete – explicitamente ou não – que “isto tem que acabar”? Quem prefere perder benesses e privilégios?

Saber votar é votar com a minha consciência em busca do melhor para mim ou do melhor pra você? E  veja que isto em nada tem a ver com educação, informação, conhecimento, nem mesmo com doutrinação. Me poupe!

Um último aspecto do voto que quero avaliar é o não-voto, o voto do isentão, ou do "odeio política" e outras razões equivalentes. O não-voto é um voto antecipado naquele que será declarado vencedor. Os que não votam pensam se livrar de um possível julgamento de responsabilidade quando as coisas dão errado e não leva crédito algum quando dão certo. O não votar, portanto, é uma atitude de covardia, de descaso para com os seus, ou de um ligar o foda-se, ou de vergonha em admitir para si mesmo  em quem votaria.

Todas as ideologias, antes de serem utopias,  são manifestações de uma burrice primitiva ou intencional. A absurda pretensão que têm de ser solução para a humanidade, ignora a natureza da diversidade humana – em todos as instâncias que se desejar analisar – e, portanto, não enxergam ou fingem não enxergar, o obstáculo intransponível que isto representa para se validarem algum dia. São só métodos para perpetuar um grupo oligárquico no phoder. E neste propósito são exímios em dar ao “povo” a promessa de satisfazer seus interesses “agora desta vez, se formos eleitos”.

A razão do voto não é outra senão o interesse autocentrado. E “não me venham com chorumelas!”.

 

sábado, agosto 22, 2026

PENTAPLEGIA DIGITRÔNICA


A história da civilização pode ser vista sob o ângulo da busca pelo menor esforço. E é mais que apenas o Homem atrás de encontrar sua  zona de conforto. Não precisamos ir muito longe para exemplificar, basta lembrarmos da substituição do botão seletor de canais pelo controle remoto nos aparelhos de TV. Como era penoso ter que levantar do sofá!!! Todo esforço físico que pode ser eliminado vem sendo eliminado e continuará sendo eliminado por todo o sempre, enquanto, em compensação, mais e mais gurus da saúde se farão presentes nos canais do Youtube ensinando exercícios cômodos, pois sentado, para os músculos da barriga, por exemplo.

Esta é a hipocrisia da existência humana: desejamos ser saudáveis para uma longevidade almejada, enquanto investimos em comodismos imediatos e prejudiciais à saúde. Bem, não sei se isso é vero, mas é o que dizem por aí!

Se olharmos para a Revolução Industrial, anos 1760, vamos lembrar que sua principal característica é a transferência da produção artesanal para a produção em série realizada por máquinas sob o olhar fiscalizador de operários. Um aumento da paraplegia dos braços que começou quando o Homem desceu das árvores africanas, e se agravou na prática da vida desde então.

A chegada dos mecanismos de busca no final da década de 1990, integra o conjunto que podemos considerar como marcadores do início da Era Digitrônica. A partir deles começamos a deixar de ter que levantar a bunda da cadeira e nos locomover fisicamente para ir a uma biblioteca e pesquisar sobre um tema qualquer. Obter conhecimento, reduzir nossa ignorância, em síntese. Continuamos a cultivar uma paraplegia seletiva das pernas - iniciada com a invenção da roda -, o que nos leva a adquirir, num futuro não muito distante, uma paraplegia cerebral.

Quase, e apenas, 30 anos depois, a Digitrônica nos brinda – isto  se sob a ótica de nossos desejos – com a já super afamada e infra compreendida Inteligência Artificial.

As minhas principais avaliações sobre as consequências da IA, são no campo da educação formal, tanto sobre o comportamento dos alunos, em primeiro lugar, quanto no dos professores como repositórios e divulgadores do saber. Atribuo aos alunos a iniciativa do processo de corrosão da atividade professoral porque são eles que demandam o saber em todas as instâncias: o quê ou por quê (necessidade), para quê e quando (adequação), quanto (profundidade), e como e onde (fonte).

Por que buscamos conhecimento? Há duas origens: a imposição genética, e a imposição social, que, normalmente, estão associadas em alguma combinação de proporções. Não importa o que as “leis de diretrizes e bases educacionais” determinem, pois quem decide, de fato, o que será apreendido, é o aluno.

Mas para quê e quando empreendemos esta busca? Para os genéticos é, em essência, obter satisfação pessoal, dos genes. Para os demais, em essência, atingir um objetivo prático na escala dos valores sociais, seja no objetivo do sentir-se pertencendo a uma "classe" social, seja para obter ganhos econômico-financeiros.

Que nível de conhecimento queremos atingir? Tanto para uns quanto para outros, a intensidade do desejo é a determinante de quão longe se quer chegar, seja na escala de reconhecimento puramente intelectual, seja no maior retorno financeiro possível que uma escalada na hierarquia profissional possa oferecer. Portanto, é uma busca por adequação aos objetivos práticos.

E por fim, como e onde encontrar tais conhecimentos? Para uma parcela minoritária, a resposta está em si mesmos, nos livros e no intercâmbio de vivências. Para a maioria, está na família (pais), na escola (professores) e nas porradas que a vida dá.

No início, ao me concentrar na escola da era Digitrônica, considerei que o papel do professor deixaria de ser o de conhecedor e divulgador – o professor Clóvis de Barros Filho se vê como um “explicador” - do conteúdo, para se tornar um "explicador" das técnicas de como pesquisar, selecionar, descartar, organizar, consolidar e transformar informação em conhecimento útil e prático. Essa minha visão esbarrou na questão da “necessidade”. E veio a pergunta: qual é, nesta nova era, o teor e o nível da necessidade? Pra quê saber previamente quando não tenho necessidade presente, e se posso obter o conhecimento quando houver necessidade no futuro, e de forma instantânea e pontual?

Que interesse, portanto, haverá, daqui em diante, dos jovens irem para a escola? Ou melhor dizendo, que “necessidade” terão? Que Leitor deste texto, já não ficou estupefato ao presenciar um jovem não tendo a menor ideia de conhecimentos elementares? Dia desses, fui pagar uma conta de 80 reais e dei uma nota de 100. O atendente, para saber o troco, pegou a calculadora do celular! Qual a necessidade de saber fazer cálculos de cabeça se todas as respostas estão, literalmente, na palma da mão? Por acaso o Leitor sabe calcular raiz quadrada de cabeça?

Não precisamos mais pensar, refletir, organizar, saber. Na profusão e confusão das informações que nos são digitronicamente “empurradas” neurônios a dentro à taxa de dezenas ou centenas  por minuto, recorremos à IA, “personificada” em Siris, Alexas, Bias... Declaramos nosso interesse, por voz ou texto, e prontamente recebemos a resposta. Ler um livro? Pra quê? Fiz um teste simples. Pedi à IA do Google: “preciso fazer um trabalho sobre o livro Rebelião das Massas em 2 páginas, constando os propósitos do autor e listando os 5 pontos que ele destaca". E... pronto! Veja o que obtive:

“Este documento foi estruturado especificamente como um trabalho de classe formal, formatado para ocupar o equivalente a duas páginas impressas com margens acadêmicas limpas e leitura confortável.”

Junto, me forneceu um link para baixar um arquivo com o trabalho pronto. Veja: www.sendme.com.br/Resumo.pdf

E me lembra que:

Se você precisar de ajustes para o seu trabalho, me avise:

  • Quer que eu inclua campos para o seu nome, data e nome do professor na primeira página?
  • Deseja adicionar uma seção específica de perguntas de discussão para apresentar em sala?
  • Prefere o arquivo em formato Word (.docx) para poder editar o texto livremente?

    Este é um exemplo do mais elementar que a IA pode eliminar de esforço intelectual. Seu potencial é absurdo e pode ser imaginado pela chamada exagerada de um corte no Youtube: “A IA vai curar todas as doenças em 2 anos!”. Duvido, mas este outro corte de uma entrevista com o cientista MIguel NIcolelis é esclarecedor e assustador: https://youtu.be/TcRua0EQ0j0?is=Y5_6-RrT2PIsgfh8

    A conclusão é que a humanidade está adicionando à tetraplegia física uma paraplegia mental e levando os seres humanos a se tornarem pentaplégicos[1]. Haverá “gurus” para curar paraplegia intelectual? "Exercícios" deitados no sofá, olhando para o teto, coçando a cabeça,  para diminuir uma obesa barriga existencial? Será este o mecanismo derradeiro de aprimoramento do homem-massa, como definido por Ortega y Gasset, em dóceis e retardados servos do phoder? É chegado o suprassumo de uma fórmula que nem o mais déspota tirano poderia ter imaginado?

    Eis as questões para as próximas gerações responderem! Mas será que irão perguntar à IA?

    Paulo Vogel - ago/26

    [1] Com pentaplegia estou incluindo o cérebro como um quinto "membro" a ser paralisado.