quarta-feira, outubro 07, 2026

A REVOLUÇÃO DOS IDIOTAS


COMO A IGNORÂNCIA DOMINOU O MUNDO MODERNO

O texto de hoje é uma edição com muitos cortes de um original publicado com este título e subtítulo acima, no Youtube, no canal “Despertar Filosófico”. Procurei o nome do autor, mas não encontrei. Se alguém souber, me diga.

É mais uma seleção das ideias do autor do que uma edição, síntese, resumo ou extrato de um artigo. Faço algumas poucas pontuais observações (que estão sempre entre colchetes e em negrito). A maioria não chega nem a ser um comentário, mas apontam para a divergência básica com o autor, pois ele ele trata o tema com uma perspectiva saudosista, sempre apontando para uma deterioração de valores civilizacionais do passado que estão sendo ou já foram destruídos (na edição retirei estas comparações e, portanto, este aspecto só é percebido claramente na leitura completa do original).

Usando o recurso do word para transcrever o áudio, obtive 7 páginas de texto sem parágrafos, que, depois desta edição, incluindo parágrafos, ficou com apenas duas páginas. A diferença, portanto, é grande. Reproduzo apenas os pontos que me pareceram mais relevantes no intuito de provocar a reflexão dos leitores. Independente de minhas pontuais divergências, o conteúdo é excelente e dá uma síntese desta Era Digitrônica em que estamos mergulhados sob a ótica de uma contemporânea de uma sociedade sob o domínio da estupidez. O link do vídeo é este: https://www.youtube.com/watch?v=6cOVtzYdbEI

Bom proveito!

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“A humanidade atravessa um paradoxo sem precedentes: nunca fomos tão profundamente estúpidos, fizemos uma escolha deliberada pela ignorância.

Nietzsche alertou que o homem prefere querer o nada a não querer, A sociedade contemporânea cultiva a estupidez, a celebra e a transforma em modelo de sucesso. O idiota deixou de ser uma anomalia social para se tornar o padrão aspiracional.

[Quando escolho ser ignorante, exalto o ignorante para me sentir exaltado. Simples assim, e nada de errado sob a luz do autocentrismo.]

A revolução não veio dos oprimidos contra opressores, mas dos ignorantes contra o próprio conhecimento. A profundidade foi substituída pela performance [produtividade], o pensamento pela reação e a verdade pela conveniência emocional. A estupidez não apenas perdeu seu estigma social, ela conquistou legitimidade, poder e admiração. O idiota moderno protagoniza, opina, dirige e comanda.

A antiga hierarquia do conhecimento colapsou, a ignorância se tornou virtude, o especialista que dedicou décadas ao estudo é colocado no mesmo patamar do amador. A mediocridade virou marca de identificação com as massas. Carregar sabedoria é uma forma de traição à comunidade do simplório. Assistimos à ascensão de uma nova aristocracia, a da estupidez ostensiva.

Ver alguém tão limitado quanto si mesmo ocupando posições de destaque oferece uma validação psicológica irresistível.  Seguir o idiota exige apenas concordar com o que já se sente. O sistema foi redesenhado [por um questão econômica de indivíduos e entidades autocentrados em seus interesses] para produzir exatamente o tipo de indivíduo que vemos proliferar superficialmente o suficiente para ser manipulável e confiante.

A revolução dos idiotas começou quando ..... [Não existe revolução e de qualquer fora não tem nada de novo, só existe adaptação dos interesses as novas circunstâncias!]. Ela [apenas] consome e regurgita em ciclos cada vez mais rápidos e rasos. Hoje só damos ouvidos aos pensamentos que vêm com berros e impacto imediato. A sutileza morreu junto com a paciência necessária para compreendê-la. Hoje, uma opinião deve ser formada em segundos e defendida com ferocidade tribal, independentemente de sua fundamentação.  É verdadeiro porque ressoa emocionalmente, porque confirma preconceitos existentes, porque oferece conforto psicológico. [Nenhuma novidade!]

Eu sinto, logo essa [sua] verdade é sentida e é tratado como agressão pessoal. O debate racional tornou-se impossível não porque as pessoas discordam, mas porque discordar exigiria primeiro compreender a posição do outro. A realidade que insiste em ser complexa e multifacetada é violentamente espremida. A repetição cria a ilusão de compreensão. Se algo foi dito, muitas vezes, passa a parecer verdadeiro.

Quando a emoção passa e os resultados desastrosos aparecem, a resposta não é refletir sobre o processo que levou ao erro. É um ciclo vicioso de estupidez emocional, onde cada erro apenas fortalece o mecanismo que o produziu. Na distração perpétua, apenas o superficial sobrevive. O Império da superficialidade não foi construído por decreto, mas por sedução.

A embalagem substituiu o conteúdo. A preocupação é parecer valioso. A verdade tornou-se irrelevante. Fatos inconvenientes são descartados se não se encaixam na história que queremos contar. Não há mais uma realidade compartilhada sobre a qual possamos dialogar. [Exatamente porque ficou exposto que a verdade não existe, ela sempre  é uma narrativa única e própria de cada indivíduo.]

Visibilidade pode ser manufaturada, gerenciada, monetizada. [Nada é novo, tudo é apenas um velho potencializado.]

A estupidez é empacotada como entretenimento. Reality shows que celebram o comportamento degradante.... tudo isso não é acidente, é design intencional. Há mais dinheiro na exploração da estupidez do que na elevação da inteligência. [Pra quê ser inteligente se temos a IA?}

Para existir socialmente, é preciso estar constantemente produzindo conteúdo, emitindo opiniões, mantendo presença. Nos expomos simplesmente para sermos vistos [e para sermos exaltados e aceitos. Enfim chegou a hora dos medíocres. “Agora é nóis!”].

Quando as instituições tradicionais colapsam, novas surgem para preencher o vácuo. A religião contemporânea tem telas digitais. O influenciador moderno lidera por capacidade de gerar identificação emocional. Sua autoridade vem de quantos o seguem. O que importa é a sensação de conexão, ter a ilusão de intimidade com alguém. As pessoas querem ser validadas e entretidas.

A adoração dos vazios não é fenômeno novo, mas sua escala é sem precedentes. Um único idiota com acesso à tecnologia certa pode infectar milhões de mentes em questão de horas. A promessa de pertencimento é a risca fundamental numa sociedade atomizada. Questionar o influenciador é trair a comunidade. Apontar inconsistências em seu discurso é heresia. A relação deixou de ser racional e tornou-se emocional e tribal. [Ela sempre foi tribal.] Santos e seus demônios, todos determinados pelo capricho emocional da massa. A fama substituiu a santidade. A obscuridade é o inferno. As massas são seduzidas por mecanismos que exploram vulnerabilidades psicológicas profundas, necessidade de pertencimento, medo de exclusão, desejo de validação.

O sistema educacional existe para formatar mentes segundo as necessidades do aparato produtivo e político. [Nenhuma novidade!] Eu, o estado, sou o povo. Cada geração emerge das escolas mais preparada para obedecer, tecnicamente treinados, mas intelectualmente castrados.  O sistema não quer cidadãos livres, quer funcionários previsíveis.

Aprendemos rapidamente qual comportamento produz recompensas.[E qual a novidade nisso?]  

Os verdadeiramente inteligentes recuaram não por covardia ou indiferença, mas por cálculo racional de suas opções num mundo onde inteligência tornou-se passivo, não ativo. Descobriram que argumentar com ignorância é exercício fútil.

No Império dos idiotas, a verdade não triunfa, ela é simplesmente descartada como inconveniente. O silêncio dos sábios é preservação de energia para batalhas que possam ser vencidas e interlocutores que ainda são capazes de raciocínio.

A sabedoria é rotulada como arrogância, porque a arrogância é crime social mais facilmente identificável e punível que estupidez. O idiota não consegue desafiar argumentos do sábio, então ataca seu caráter e mobiliza ressentimento.

O silêncio tornou-se último refúgio da lucidez. A emoção grita por abandono da razão. Os inteligentes não abandonaram o mundo, apenas reconheceram que o mundo os abandonou primeiro, e esse silêncio estratégico talvez esteja a única Esperança. Que quando a civilização da estupidez inevitavelmente colapsar ainda haverá mentes preservadas capazes de reconstruir algo melhor antes de nos despedirmos. [Melhor pra quem?].”


segunda-feira, setembro 28, 2026

A RAZÃO DO VOTO


O tema proposto é apenas um pequeno excerto dentro de um todo sobre a ação humana, mas que trato aqui por estar às vésperas de um processo eleitoral que ainda temos a esperança de que ocorra nos próximos 4 e 25 de outubro.

Fui motivado por um vídeo no Youtube que, em essência, expõe uma das falas que mais me irritam quando a ouço: “o povo não sabe votar”, e menos ainda, o “brasileiro”! É mais que hipocrisia, mas vou me ater apenas a este aspecto por ser o que interessa neste momento.

O que é saber votar, “cara-pálida”? Votar em quem você vota? Deixemos de lado este aspecto arrogante de tal argumento. É concordar com sua visão, sua análise, seus interesses? Mas se cada indivíduo tem sua própria visão, faz sua própria análise e tem seus próprios interesses, então “saber votar” não pode ser votar como você!!! Aliás, nem mesmo os que se dizem “saber votar” – sim, quem acusa “o povo” de não saber votar é porque se arvora o “saber votar” e se exclui da massa “povo” –, não estão de acordo com em quem ou no quê votar!!!???

Hipocrisia exposta, vamos ao que interessa.

Todos nós sabemos votar, sejamos “povo”, instruídos ou destruídos, parasitas ou empreendedores, analfabetos funcionais ou intelectuais cooptados, elite política, classe A, B, C, D... nenhuma classificação importa, todos temos nossas razões autocentradas para todas as nossas ações, e votar é, em instância básica, tentar exerce-la como manifestação do livre-arbítrio.

Ok, você concorda com esta obviedade no seu grupo de pertencimento, mas não no “povo”, é isso? Ah! Já sei, o “povo” não está entendendo que seus – de você – interesses estarão sendo ameaçados se o “povo” votar "errado", é isso!?

A existência e sua sobrevivência, física, mental e espiritual (ou intelectual, como queira), são absolutamente subordinadas ao momento presente. Se estou com sede, quero água agora, não depois. Se estou com dúvida, preciso buscar certeza tão logo. Se estou com medo, preciso de segurança imediata.

Evidentemente esta premência em atender interesses autocentrados é relativa à complexidade da realização de sua satisfação, mas o voto nada mais é que uma aposta que fazemos para isto, na esperança de que seja no curto prazo, porque nosso tempo de vida está se exaurindo.

O Homem, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, primeiro há que buscar satisfazer suas necessidades físicas básicas de curtíssimo prazo – abrigo, alimento, saúde e segurança -, para só depois ter interesses de médio e longo prazos – crescimento profissional, futuro dos filhos e da nação, preservar patrimônio. etc.

Um segundo aspecto é que todo ser busca sua melhor zona de conforto. Sinceramente, quem não gostaria de não precisar “ralar” para ter os recursos para a satisfação de seus interesses depositados em sua conta bancária todo santo mês? Por que você acha que é melhor o sujeito do “povo” se arriscar a perder benesses como os diversos “bolsas” socinistas e votar no candidato que promete – explicitamente ou não – que “isto tem que acabar”? Quem prefere perder benesses e privilégios?

Saber votar é votar com a minha consciência em busca do melhor para mim ou do melhor pra você? E  veja que isto em nada tem a ver com educação, informação, conhecimento, nem mesmo com doutrinação. Me poupe!

Um último aspecto do voto que quero avaliar é o não-voto, o voto do isentão, ou do "odeio política" e outras razões equivalentes. O não-voto é um voto antecipado naquele que será declarado vencedor. Os que não votam pensam se livrar de um possível julgamento de responsabilidade quando as coisas dão errado e não leva crédito algum quando dão certo. O não votar, portanto, é uma atitude de covardia, de descaso para com os seus, ou de um ligar o foda-se, ou de vergonha em admitir para si mesmo  em quem votaria.

Todas as ideologias, antes de serem utopias,  são manifestações de uma burrice primitiva ou intencional. A absurda pretensão que têm de ser solução para a humanidade, ignora a natureza da diversidade humana – em todos as instâncias que se desejar analisar – e, portanto, não enxergam ou fingem não enxergar, o obstáculo intransponível que isto representa para se validarem algum dia. São só métodos para perpetuar um grupo oligárquico no phoder. E neste propósito são exímios em dar ao “povo” a promessa de satisfazer seus interesses “agora desta vez, se formos eleitos”.

A razão do voto não é outra senão o interesse autocentrado. E “não me venham com chorumelas!”.

 

sábado, agosto 22, 2026

PENTAPLEGIA DIGITRÔNICA


A história da civilização pode ser vista sob o ângulo da busca pelo menor esforço. E é mais que apenas o Homem atrás de encontrar sua  zona de conforto. Não precisamos ir muito longe para exemplificar, basta lembrarmos da substituição do botão seletor de canais pelo controle remoto nos aparelhos de TV. Como era penoso ter que levantar do sofá!!! Todo esforço físico que pode ser eliminado vem sendo eliminado e continuará sendo eliminado por todo o sempre, enquanto, em compensação, mais e mais gurus da saúde se farão presentes nos canais do Youtube ensinando exercícios cômodos, pois sentado, para os músculos da barriga, por exemplo.

Esta é a hipocrisia da existência humana: desejamos ser saudáveis para uma longevidade almejada, enquanto investimos em comodismos imediatos e prejudiciais à saúde. Bem, não sei se isso é vero, mas é o que dizem por aí!

Se olharmos para a Revolução Industrial, anos 1760, vamos lembrar que sua principal característica é a transferência da produção artesanal para a produção em série realizada por máquinas sob o olhar fiscalizador de operários. Um aumento da paraplegia dos braços que começou quando o Homem desceu das árvores africanas, e se agravou na prática da vida desde então.

A chegada dos mecanismos de busca no final da década de 1990, integra o conjunto que podemos considerar como marcadores do início da Era Digitrônica. A partir deles começamos a deixar de ter que levantar a bunda da cadeira e nos locomover fisicamente para ir a uma biblioteca e pesquisar sobre um tema qualquer. Obter conhecimento, reduzir nossa ignorância, em síntese. Continuamos a cultivar uma paraplegia seletiva das pernas - iniciada com a invenção da roda -, o que nos leva a adquirir, num futuro não muito distante, uma paraplegia cerebral.

Quase, e apenas, 30 anos depois, a Digitrônica nos brinda – isto  se sob a ótica de nossos desejos – com a já super afamada e infra compreendida Inteligência Artificial.

As minhas principais avaliações sobre as consequências da IA, são no campo da educação formal, tanto sobre o comportamento dos alunos, em primeiro lugar, quanto no dos professores como repositórios e divulgadores do saber. Atribuo aos alunos a iniciativa do processo de corrosão da atividade professoral porque são eles que demandam o saber em todas as instâncias: o quê ou por quê (necessidade), para quê e quando (adequação), quanto (profundidade), e como e onde (fonte).

Por que buscamos conhecimento? Há duas origens: a imposição genética, e a imposição social, que, normalmente, estão associadas em alguma combinação de proporções. Não importa o que as “leis de diretrizes e bases educacionais” determinem, pois quem decide, de fato, o que será apreendido, é o aluno.

Mas para quê e quando empreendemos esta busca? Para os genéticos é, em essência, obter satisfação pessoal, dos genes. Para os demais, em essência, atingir um objetivo prático na escala dos valores sociais, seja no objetivo do sentir-se pertencendo a uma "classe" social, seja para obter ganhos econômico-financeiros.

Que nível de conhecimento queremos atingir? Tanto para uns quanto para outros, a intensidade do desejo é a determinante de quão longe se quer chegar, seja na escala de reconhecimento puramente intelectual, seja no maior retorno financeiro possível que uma escalada na hierarquia profissional possa oferecer. Portanto, é uma busca por adequação aos objetivos práticos.

E por fim, como e onde encontrar tais conhecimentos? Para uma parcela minoritária, a resposta está em si mesmos, nos livros e no intercâmbio de vivências. Para a maioria, está na família (pais), na escola (professores) e nas porradas que a vida dá.

No início, ao me concentrar na escola da era Digitrônica, considerei que o papel do professor deixaria de ser o de conhecedor e divulgador – o professor Clóvis de Barros Filho se vê como um “explicador” - do conteúdo, para se tornar um "explicador" das técnicas de como pesquisar, selecionar, descartar, organizar, consolidar e transformar informação em conhecimento útil e prático. Essa minha visão esbarrou na questão da “necessidade”. E veio a pergunta: qual é, nesta nova era, o teor e o nível da necessidade? Pra quê saber previamente quando não tenho necessidade presente, e se posso obter o conhecimento quando houver necessidade no futuro, e de forma instantânea e pontual?

Que interesse, portanto, haverá, daqui em diante, dos jovens irem para a escola? Ou melhor dizendo, que “necessidade” terão? Que Leitor deste texto, já não ficou estupefato ao presenciar um jovem não tendo a menor ideia de conhecimentos elementares? Dia desses, fui pagar uma conta de 80 reais e dei uma nota de 100. O atendente, para saber o troco, pegou a calculadora do celular! Qual a necessidade de saber fazer cálculos de cabeça se todas as respostas estão, literalmente, na palma da mão? Por acaso o Leitor sabe calcular raiz quadrada de cabeça?

Não precisamos mais pensar, refletir, organizar, saber. Na profusão e confusão das informações que nos são digitronicamente “empurradas” neurônios a dentro à taxa de dezenas ou centenas  por minuto, recorremos à IA, “personificada” em Siris, Alexas, Bias... Declaramos nosso interesse, por voz ou texto, e prontamente recebemos a resposta. Ler um livro? Pra quê? Fiz um teste simples. Pedi à IA do Google: “preciso fazer um trabalho sobre o livro Rebelião das Massas em 2 páginas, constando os propósitos do autor e listando os 5 pontos que ele destaca". E... pronto! Veja o que obtive:

“Este documento foi estruturado especificamente como um trabalho de classe formal, formatado para ocupar o equivalente a duas páginas impressas com margens acadêmicas limpas e leitura confortável.”

Junto, me forneceu um link para baixar um arquivo com o trabalho pronto. Veja: www.sendme.com.br/Resumo.pdf

E me lembra que:

Se você precisar de ajustes para o seu trabalho, me avise:

  • Quer que eu inclua campos para o seu nome, data e nome do professor na primeira página?
  • Deseja adicionar uma seção específica de perguntas de discussão para apresentar em sala?
  • Prefere o arquivo em formato Word (.docx) para poder editar o texto livremente?

    Este é um exemplo do mais elementar que a IA pode eliminar de esforço intelectual. Seu potencial é absurdo e pode ser imaginado pela chamada exagerada de um corte no Youtube: “A IA vai curar todas as doenças em 2 anos!”. Duvido, mas este outro corte de uma entrevista com o cientista MIguel NIcolelis é esclarecedor e assustador: https://youtu.be/TcRua0EQ0j0?is=Y5_6-RrT2PIsgfh8

    A conclusão é que a humanidade está adicionando à tetraplegia física uma paraplegia mental e levando os seres humanos a se tornarem pentaplégicos[1]. Haverá “gurus” para curar paraplegia intelectual? "Exercícios" deitados no sofá, olhando para o teto, coçando a cabeça,  para diminuir uma obesa barriga existencial? Será este o mecanismo derradeiro de aprimoramento do homem-massa, como definido por Ortega y Gasset, em dóceis e retardados servos do phoder? É chegado o suprassumo de uma fórmula que nem o mais déspota tirano poderia ter imaginado?

    Eis as questões para as próximas gerações responderem! Mas será que irão perguntar à IA?

    Paulo Vogel - ago/26

    [1] Com pentaplegia estou incluindo o cérebro como um quinto "membro" a ser paralisado.

    domingo, junho 14, 2026

    TRAUMA DE JUVENTUDE

     

    Reflexões inacabadas

     

    Sou publicitário e empresário, e desde que me entendo por gente, sou um insatisfeito. Acho que já nasci assim, deve ser genético, o que não duvido, porque, enquanto a maioria das pessoas nasce num prazo de 9 meses (ou até menos), eu fui tirado a forceps da barriga de minha mãe lá pela 46ª semana de gestação. A minha infância até que foi bem feliz, como deve ter sido a de todos, fora alguns puxões de orelha, uns beliscões, umas palmadas e alguns nãos como castigos. Os nossos problemas só começam mesmo na adolescência. Aos 14 anos já procurava na fumaça do cigarro o segredo da vida. Há três anos larguei do vício, mas não da procura. É por causa dela que conto o que conto.

     

    Existe um fato que ocorreu por volta de 1965 ao qual atribuo a origem do que tem sido a minha busca onde quer que eu tenha estado. Eu tinha 16 anos e era um adolescente amando os Beatles, mas meu herói ainda era meu pai. Ele era um comerciante, na verdade, por ofício, um confeiteiro. Dedicou a vida a uma só missão:  fazer bolos, doces, biscoitos e pães da melhor maneira que eles pudessem ser feitos. Eu o admiro por isso. Foram mais de 50 anos dando continuidade a uma história que começara no final do século XIX, em 1898, com o nome de Padaria Alemã, pelas mãos de Maria Vogel, filha de alemães imigrantes, tia de meu pai. Mas a intolerância dos tempos da Primeira Guerra Mundial, obrigou à mudança do nome para Padaria e Confeitaria Petrópolis. Depois da guerra, para preservar suas origens e valores, ela adicionou ao nome um providencial "Ex-Alemã" e assim se tornou conhecida e parte das tradições petropolitanas.

     

    Em algum dia daquele ano, meu pai chegou para o jantar com um ar desanimado. Perguntei o porquê e nunca mais me saiu da cabeça o seu breve desabafo. Àquela época, o Brasil navegava em uma inflação anual de 40% e os salários eram reajustados uma só vez, em primeiro de maio. Por livre e espontânea vontade, no ano anterior, meu pai resolvera aumentar seus funcionários, de três em três meses, com base na inflação do trimestre passado. Quando chegou maio, portanto, bastava aplicar o índice referente aos últimos três meses e o salário estaria mais que bem ajustado, pois o método de meu pai proporcionava uma remuneração anual significativamente maior que um só ajuste no ano. Entretanto, o  sindicato da categoria entrou na justiça do trabalho alegando que eram aumentos espontâneos e reivindicaram a aplicação integral do índice anual sobre o salário de abril, já fruto do reajuste trimestral. A justiça lhes deu ganho de causa. Me dizem que foi culpa dele por não ter anotado nas carteiras de trabalho que o ajuste era devido à inflação. A considerar como verdade, temos um exemplo da burocracia judicial se sobrepondo realidade dos fatos.

     

    Todo empregador já viveu experiências semelhantes no relacionamento com empregados. Mas, ali, era apenas um garoto vendo seu pai desiludido e revoltado com a justiça que o punia por ser mais justo que a lei. Perguntei se ele havia explicado direito e sua resposta foi mais ou menos a seguinte: "Expliquei, meu filho, mas não quiseram entender. O que me entristece é que eles, os empregados, ao final, saíram perdendo. A partir de agora, aumento, só quando e quanto a lei determinar". Mais tarde eu fui entender que a justiça havia dado uma lição a meu pai de como se devia tratar os empregados. Mas ali, frente a meu pai, um garoto jurou que um dia encontraria a resposta à sua indignação e então poderia dizer: "Não fique triste, meu pai, eu descobri porque eles agiram assim". No dia seguinte, já esquecido da jura, eu cantava "Help" a plenos pulmões.

     

    Trinta anos depois e muitas frustrações em encontrar porquês, me dei conta de quanto aquele fato havia estado na minha vida. Desde aquele dia, vivo numa incessante busca pelo entendimento de por que as pessoas agem do jeito que agem. Por que pensamos o que pensamos? Por que filhos não se entendem com seus pais ou por que eu e meu filho brigamos tanto? Por que brigo com minha mulher por coisas insignificantes? Por que antipatizo tanto com meu vizinho? Por que empregados conspiram contra patrões e patrões tratam empregados como uma manada de búfalos que precisa ser contida? Por que as relações entre empregadores e empregados têm que necessariamente ser na base do eu finjo que pago e eles fingem que trabalham? Por que trabalho no que não gosto e com quem não gosto? Afinal, o que comanda nossas atitudes? Qual a lógica do ser humano se é que existe alguma?

     

    No trajeto de líder que fiz de monitor de uma patrulha de escoteiros até empresário de propaganda, estudei, testei, tentei, usei, experimentei as mais diversas teorias sobre o que está no cerne das relações humanas em geral, e em particular entre empregadores e empregados. Vi muita receita fácil e pouco diagnóstico. Pílulas de placebo, se bem não fazem, nada fazem. Livros de autoajuda são o melhor caminho para o engodo intelectual e espiritual. O mundo está repleto deles. Autores que sabem tudo sobre o que é melhor para nós sem nunca nos terem visto. Estão sempre dispostos a nos transmitir as "suas verdades”. Isto é tão presente em nosso cotidiano, uma seita me diz para meditar junto a um monge Tibetano para resolver meu relacionamento com meu chefe! Como ficaria o mundo se todos se convencessem desta "necessidade"? E como ficaria o Tibet? Há pouco tempo assisti a uma palestra onde me aconselharam a passear pela floresta para me energizar. E, last but not least, a olhar para o tomate na feira à procura do belo. Não sou contra florestas ou tomates, apenas florestas só me serão benéficas se eu me sentir bem nelas e tomates não são exatamente o meu referencial do belo. Eu não posso aconselhar ninguém a andar por duas horas ao longo do calçadão da praia junto com um amigo como forma de se sentir mais feliz. Mas eu sou mais feliz quando faço isso. O fato de você aconselhar alguém a ir à igreja como forma de encontrar a paz interior, e esta pessoa ir e gostar de ter ido, não quer dizer que ir à igreja trás a paz. O que teimamos em não ver é que se a pessoa aceita nossa sugestão significa que ela está à procura de algo que lhe transmita a sensação de paz. Por estar à procura, ela está disposta a experimentar novos ambientes e testar suas sensações até encontrar o que lhe proporcione o que procura. Mas isso não tem graça, pois estamos sempre desejando ver nossas ideias, crenças, atitudes, comportamentos e opiniões, adotados pelos outros. É muito doido! Precisamos que nossa verdade seja a verdade do outro! As formuletas deste tipo até poderiam ser consideradas se viessem acompanhadas de atestado de responsabilidade caso alguma coisa saísse errada. Mas, obviamente, este ninguém estaria disposto a assinar. Quando os “conselhos” adotados dão errado, há sempre uma resposta na ponta da língua: "Ah! mas é que ele não fez direito." Ou então uma bem calhorda: "Mas você deu os três pulinhos, rodopiou, repetiu “sapo-sêco-mangalô-treis-veiz”? Não? Então foi isso."

     

    Na verdade o que está em jogo é o poder. Acha que estou exagerando? Pois digo que pouco há que dê tanto prazer quanto a sensação de poder sobre um outro. Se achar superior a um outro, em qualquer sentido, “não tem preço”. E liberdade de pensamento e poder nunca tiveram um convívio produtivo. Quando todos pensam de um mesmo modo, fica mais fácil a dominação.

     

    Ao longo de toda a história da humanidade, a supressão das liberdades sempre foi o primeiro ato do dominador, e padronizar é a receita para garantir ausência de questionamentos.

     

    sábado, abril 25, 2026

    MASSA, PODER E ESTUPIDEZ



    O ser vivo, qualquer ser vivo, tem como seu guia de vivência a entidade Medo. Ela se manifesta em diversas instâncias e intensidades, mas todas diretamente relacionadas à sobrevivência. Mas para os humanos, com suas consciências “evoluídas”,  o reconhecimento desta condição é absolutamente incômodo e a saída que vislumbramos é nos tornarmos estúpidos, sabendo que estupidez é o sinônimo “mais que perfeito” para o negar as realidades de si e de seu entorno.

    Temos medo porque odiamos perder privilégios. Odiamos imaginar perder a vida, o primeiro dos privilégios (evidentemente para aqueles que têm noção de a vida ser um privilégio que o acaso concedeu a uma específica estrutura de átomos!). A partir deste, todos os demais são uma sequência de medos de perder privilégios. Para o Homem moderno, o medo de perder a casa para o banco, a namorada para o amigo, o amigo para o ciúme, o emprego para o beneficiado de uma cota qualquer, o bolsa família para a troca de governo, e assim “ad aeternum”. O medo é o mote da vida e o pai da estupidez. Por nossos privilégios não nos vexamos de ser estúpidos, de nos mantermos com antolhos para não termos que ver e conviver com o que ameaça nossos privilégios.

    Estupidez e hipocrisia são irmãos siameses[1], um não sobrevive sem o outro. Para ser estúpido e sobreviver, preciso ser hipócrita. Se não sou hipócrita, não sou estúpido.

    Vejamos o jogo (jogo?, não!), guerra de poder, especificamente no caso do ex-Brasil[2].  Tanto de um lado quanto de outro do espectro político, o que é objeto das ações é, por uns, o medo de perder o poder, por outros, o medo de não chegar ao poder. Integrantes, defensores, militantes, partidários, cidadãos apolíticos, TODOS somos bonecos manipulados pelo medo, seja o de perder privilégios, seja o de almejar privilégios.

    A exaltação de Lula só se sustenta enquanto se descarta, consciente, mas estupidamente, tudo o que possa ameaçar a coerência. Sou estúpido, logo sobrevivo. Lula está no poder por ação de uma massa minoritária de apoiadores brasileiros de todos os níveis e de todas as instâncias (econômica, social, política e intelectual). Bolsonaro foi posto para fora, mas continua um potencial candidato ao poder, pois sustentado também por uma massa não majoritária de sustentadores também de todas as instâncias. Enquanto o lulismo teme o bolsonarismo e usa como recurso a estupidez para desmoralizar as propostas liberais com a intenção de eliminar a ameaça potencial a seus privilégios, o bolsonarismo teme o lulismo e usa do mesmo artifício, a estupidez, para desqualificar seus atos e ideias de todas as formas, com a intenção de destruir o "progressismo", pois um obstáculo à chegada do poder e dos privilégios.

    É a isto que a política se resume. Um contingente de gentes que necessitam do exercício de poder, divididos em dois grupos, os que querem mantê-lo e os que querem conquistá-lo. É só isso em essência, mas uma essência que só se manifesta através de massas cuja estupidez é manipulada, parte por uns, parte por outros. Contingente que denomino de IIUs, “inocentes inúteis, úteis”. Mas quem não é?

     


    [1] Não sei como construir esta proposição na linguagem dita “politicamente correta”.

    [2] A constituição brasileira foi incinerada pelos seus protetores. Como um país só existe a partir de uma “Constituição”, caso contrário ele não pode ser “constituído”, então, por dedução primária, não existe mais um país denominado Brasil.