A história da civilização pode ser vista sob o ângulo da busca pelo menor esforço. E é mais que apenas o Homem atrás de encontrar sua zona de conforto. Não precisamos ir muito longe para exemplificar, basta lembrarmos da substituição do botão seletor de canais pelo controle remoto nos aparelhos de TV. Como era penoso ter que levantar do sofá!!! Todo esforço físico que pode ser eliminado vem sendo eliminado e continuará sendo eliminado por todo o sempre, enquanto, em compensação, mais e mais gurus da saúde se farão presentes nos canais do Youtube ensinando exercícios cômodos, pois sentado, para os músculos da barriga, por exemplo.
Esta é a hipocrisia da existência humana: desejamos ser saudáveis para uma longevidade almejada, enquanto investimos em comodismos imediatos e prejudiciais à saúde. Bem, não sei se isso é vero, mas é o que dizem por aí!
Se olharmos para a Revolução Industrial, anos 1760, vamos lembrar que sua principal característica é a transferência da produção artesanal para a produção em série realizada por máquinas sob o olhar fiscalizador de operários. Um aumento da paraplegia dos braços que começou quando o Homem desceu das árvores africanas, e se agravou na prática da vida desde então.
A chegada dos mecanismos de busca no final da década de 1990, integra o conjunto que podemos considerar como marcadores do início da Era Digitrônica. A partir deles começamos a deixar de ter que levantar a bunda da cadeira e nos locomover fisicamente para ir a uma biblioteca e pesquisar sobre um tema qualquer. Obter conhecimento, reduzir nossa ignorância, em síntese. Continuamos a cultivar uma paraplegia seletiva das pernas - iniciada com a invenção da roda -, o que nos leva a adquirir, num futuro não muito distante, uma paraplegia cerebral.
Quase, e apenas, 30 anos depois, a Digitrônica nos brinda – isto se sob a ótica de nossos desejos – com a já super afamada e infra compreendida Inteligência Artificial.
As minhas principais avaliações sobre as consequências da IA, são no campo da educação formal, tanto sobre o comportamento dos alunos, em primeiro lugar, quanto no dos professores como repositórios e divulgadores do saber. Atribuo aos alunos a iniciativa do processo de corrosão da atividade professoral porque são eles que demandam o saber em todas as instâncias: o quê ou por quê (necessidade), para quê e quando (adequação), quanto (profundidade), e como e onde (fonte).
Por que buscamos conhecimento? Há duas origens: a imposição genética, e a imposição social, que, normalmente, estão associadas em alguma combinação de proporções. Não importa o que as “leis de diretrizes e bases educacionais” determinem, pois quem decide, de fato, o que será apreendido, é o aluno.
Mas para quê e quando empreendemos esta busca? Para os genéticos é, em essência, obter satisfação pessoal, dos genes. Para os demais, em essência, atingir um objetivo prático na escala dos valores sociais, seja no objetivo do sentir-se pertencendo a uma "classe" social, seja para obter ganhos econômico-financeiros.
Que nível de conhecimento queremos atingir? Tanto para uns quanto para outros, a intensidade do desejo é a determinante de quão longe se quer chegar, seja na escala de reconhecimento puramente intelectual, seja no maior retorno financeiro possível que uma escalada na hierarquia profissional possa oferecer. Portanto, é uma busca por adequação aos objetivos práticos.
E por fim, como e onde encontrar tais conhecimentos? Para uma parcela minoritária, a resposta está em si mesmos, nos livros e no intercâmbio de vivências. Para a maioria, está na família (pais), na escola (professores) e nas porradas que a vida dá.
No início, ao me concentrar na escola da era Digitrônica, considerei que o papel do professor deixaria de ser o de conhecedor e divulgador – o professor Clóvis de Barros Filho se vê como um “explicador” - do conteúdo, para se tornar um "explicador" das técnicas de como pesquisar, selecionar, descartar, organizar, consolidar e transformar informação em conhecimento útil e prático. Essa minha visão esbarrou na questão da “necessidade”. E veio a pergunta: qual é, nesta nova era, o teor e o nível da necessidade? Pra quê saber previamente quando não tenho necessidade presente, e se posso obter o conhecimento quando houver necessidade no futuro, e de forma instantânea e pontual?
Que interesse, portanto, haverá, daqui em diante, dos jovens irem para a escola? Ou melhor dizendo, que “necessidade” terão? Que Leitor deste texto, já não ficou estupefato ao presenciar um jovem não tendo a menor ideia de conhecimentos elementares? Dia desses, fui pagar uma conta de 80 reais e dei uma nota de 100. O atendente, para saber o troco, pegou a calculadora do celular! Qual a necessidade de saber fazer cálculos de cabeça se todas as respostas estão, literalmente, na palma da mão? Por acaso o Leitor sabe calcular raiz quadrada de cabeça?
Não precisamos mais pensar, refletir, organizar, saber. Na profusão e confusão das informações que nos são digitronicamente “empurradas” neurônios a dentro à taxa de dezenas ou centenas por minuto, recorremos à IA, “personificada” em Siris, Alexas, Bias... Declaramos nosso interesse, por voz ou texto, e prontamente recebemos a resposta. Ler um livro? Pra quê? Fiz um teste simples. Pedi à IA do Google: “preciso fazer um trabalho sobre o livro Rebelião das Massas em 2 páginas, constando os propósitos do autor e listando os 5 pontos que ele destaca". E... pronto! Veja o que obtive:
“Este documento foi estruturado especificamente como um trabalho de classe formal, formatado para ocupar o equivalente a duas páginas impressas com margens acadêmicas limpas e leitura confortável.”
Junto, me forneceu um link para baixar um arquivo com o trabalho pronto. Veja: www.sendme.com.br/Resumo.pdf
E me lembra que:
Se você precisar de ajustes para o seu trabalho, me avise:
- Quer que eu inclua campos para o seu nome, data e nome do professor na primeira página?
- Deseja adicionar uma seção específica de perguntas de discussão para apresentar em sala?
- Prefere o arquivo em formato Word (.docx) para poder editar o texto livremente?
Este
é um exemplo do mais elementar que a IA pode eliminar de esforço intelectual. Seu
potencial é absurdo e pode ser imaginado pela chamada exagerada de um corte no Youtube: “A IA vai curar todas as doenças em 2 anos!”. Duvido, mas este outro corte de uma entrevista com o cientista MIguel NIcolelis é esclarecedor e assustador:
A conclusão é que a humanidade está adicionando à tetraplegia física uma paraplegia mental e levando os seres humanos a se tornarem pentaplégicos[1]. Haverá “gurus” para curar paraplegia intelectual? "Exercícios" deitados no sofá, olhando para o teto, coçando a cabeça, para diminuir uma obesa barriga existencial? Será este o mecanismo derradeiro de aprimoramento do homem-massa, como definido por Ortega y Gasset, em dóceis e retardados servos do phoder? É chegado o suprassumo de uma fórmula que nem o mais déspota tirano poderia ter imaginado?
Eis as questões para as próximas gerações responderem! Mas será que irão perguntar à IA?
[1] Com pentaplegia estou incluindo o cérebro como um quinto "membro" a ser paralisado.




